1 Carneirinho, 2 Carneirinhos, 3 Carneirinhos… lá vem a Ovelha Negra

March 26, 2007

Eu devia estar dormindo… mas não… estou aqui acordado… insone.

A Insônia me acompanha. De vez em quando ela me dá uma folga e me deixa dormir… nas horas em que devia estar acordado.

Desde menino, essa maldita está comigo. Só que naquele tempo ela se disfarçava de monstro, e morava embaixo de minha cama.

Eu tinha medo que o monstro saisse e pegasse no meu pé. Depois descobri que o monstro era a Insônia.

Agora ela não pode mais se disfaçar de monstro e morar embaixo de minha cama. Até porque minha cama é daquela tipo box, então não caberia um monstro embaixo.

Minha cabeça dói. Que ótimo! Alem da companhia de dona Insônia, me bate uma dor de cabeça.

Vou tomar dipirona… pelo menos a dor de cabeça passa.

Certa vez minha mãe me disse que contar carneirinhos ajudava a dormir. Talvez a Insônia não goste de carneiros.

Então lá estava eu, contando meus carneiros, que felizes pulavam a cerca e gritavam béeee.

Meu rebanho já era considerável. Devia ter mais dois mil carneiros. Dois mil e quarenta e sete pra ser mais exato. Então veio uma ovelha negra e esculhambou tudo. Bem que mainha tinha me avisado pra tomar cuidado com a ovelha negra. Ela vem só de sacanagem pra te fazer contar todos os carneiros de novo.

Acho que a Insônia se disfarça de ovelha negra só pra dispersar o resto do rebanho e fazer você contar todos os carneiros de novo. Insônia idiota!

Tem outras coisas que também fazem uma pessoa pegar no sono, como por exemplo, leite quente e cerveja gelada.

Tenho as duas opções disponíveis, mas o leite vou ter que esquentar… fico com a cerveja que já está gelada.

Mas já tomei dipirona pra dor de cabeça…. Ah! Que se foda… Vou tomar a cerveja. O máximo que pode acontecer é eu ficar doidão e ver carneiros psicodélicos.

Bem, a cerveja não me ajudou a dormir, nem me deixou doidão junto com a dipirona… pelo menos ainda não…

Agora tenho a impressão que fiz mal juízo da ovelha negra, talvez seja a cerveja, mas acho que ela não era a Insônia. Na verdade a Insônia era todos os outros carneiros. Que apareciam para me manter acordado, enquanto os contava feito besta.

A ovelha negra era a salvação. Agora entendi o que recado. Ela atrapalhava de propósito para que eu me tocasse e dissesse algo do tipo: “Aos diabos com esses carneiros, vou dormir que ganho mais!”, e assim pudesse dormir tranquilo.

Espero que a ovelha negra aceite minhas desculpas.

Deixa eu tentar expulsar a Insônia, acho que vou apelar pra uma pílula branca do frasco preto. É minha última salvação por hoje.

Odeio carneiros!

Originalmente publicado no PsychoPenguin Weblog em 20 de setembro de 2006.

 

Porra Ulisses, Porra

March 23, 2007

As 4:39 da madrugada Ulisses acorda tão desesperado quanto um cara sem braços com oxiúrus.

Seu sono fora interrompido por um sonho recorrente. Era uma festa, daquelas de grã-fino. Mulheres de vestido longo e homens de smoking.

No meio do salão, estava Ulisses. Impecável. Gravata borboleta vermelha, com uma camisa branca de seda. Por cima um estupendo terno preto. Meias e sapatos também pretos. E pra finalizar: calças… ausentes.

Lá estava Ulisses, no meio do salão, sem as calças, exibindo uma patética cueca-slip amarela, bem na hora de tirar seu par para a dança.

Sonhava com isso sempre que estava ansioso.

E dessa vez a ansiedade atendia por krente26@hotmail.com. A princípio Ulisses achava que não passaria de um “oi, quer tc?” por se tratar de uma evangélica, mas com o passar do tempo descobriu que a letra K deveria ser lida foneticamente. carente vinte e seis arroba hotmail ponto com, era assim que se lia.

Então depois de umas longas 3 semanas de chat quentíssimo, mas sem webcam (só depois de casar), decidiram se conhecer pessoalmente. Era isso que deixava Ulisses ansioso.

O que mais se aproximava a intimidades com uma mulher em toda a sua existência era observar as calcinhas de sua mãe e sua irmã secarem no varal. Mas isso foi bem antes da da faculdade, antes dele sair de casa aos 18.

Resolveu tomar um copo d’água e tentar voltar a dormir. Já eram 6:17 e ele precisava aparentar disposição para o encontro de logo mais.

Então Ulisses se acalma e sonha com uma personificação de krente26@hotmail.com, nua, fazendo-lhe uma massagem nas costas.

Então as 16:46, acorda de pau duro, e frustrado fica na cama.

O encontro era as 14:00.

 

All Star Life Game

March 19, 2007

Enquanto dorme, fico acordado ao teu lado observando as estrelas.

Têm algumas lendas, não sei de onde, apenas vi nos desenhos, que dizem que as estrelas são a representação do espiríto de pessoas que já morreram.

Acho que aquele ali é César, o nerd. E ali está Roberto, o bêbado. E ao seu lado, Osmar, o maconheiro.

Aqueles outros 5 iguais ali, é um time de futsal amador de um bairro de periferia. Entre eles está Sofia, a puta.

Nas proximidades tem Helena, a garçonete e Elton, o dono do bar.

Um pouco mais ao longe dá pra ver Jorge-que-gosta-de-ser-chamado-de-Syd, o punk, e ao seu lado enchendo-lhe o saco está Tenório, o mendigo, que já foi amigo de Roberto, o bêbado.

Por aqueles lados vê-se Nívea, a musa que fazia parte dos sonhos-que-fazem-acordar-molhado de César, o nerd.

Contando-lhe o cabelo está Aroldo, o cabeleireiro e melhor amigo de Sofia, a puta.

Já aquele casal ali é o general Almir e sua esposa Dona Marta, pais de Aroldo, o cabeleireiro e de Osmar, o maconheiro.

Aquele outro solitário na mesa é apenas um Zé Ninguém, um observador de estrelas desconhecido, que as vezes toma sua cerveja no bar de Elton, o dono do bar, servida por Helena, a garçonete.

Mas de que isso importa? São apenas estrelas.

 

Os Melhores Anos de Minha Vida

March 14, 2007

Take My Breath Away do Berlin era a música do momento. Impulsionada pelo filme Top Gun. Teve Copa do Mundo no México, e o Brasil tinha sido eliminado nas quartas-de-final pela França. Essa foi minha primeira decepção com algo que eu gostava. Não acreditava no que diziam meu avô, meu pai e a televisão, de que o Brasil era o melhor do mundo e já tinha ganho três vezes. Pra mim tinha virado decepção, mas nada comparado com o que se seguiu.

Eu era um jovem próximo dos 8 anos de idade, e cursava a primeira série do primário. Eu já tinha até uma namorada, inclusive meu pai tirou uma foto junto com ela no meu aniversário. Nada de beijinhos ou abraços, apenas dois corpos infantis um do lado do outro oulhando para uma camêra. Bem, a foto saiu assim talvez porque ela ainda não soubesse que era minha namorada.

Apenas eu sabia. Eu e meu pai. Chamava-se Daniela, ou Alice, ou ainda Fernanda. Isso não importa. O caso é que ela foi a primeira, mesmo sem saber e guardei isso durante toda minha primeira série. Quando soube, terminamos.

Vadia.

E ainda te dediquei Quatro Semanas de Amor de Luan e Vanessa na rádio. Acho que era Daniela. Ainda bem que mudei de escola na terceira série.

Colegas novos, ambiente propício pra esquecer a putinha que tinha arrebentado pela primeira vez meu coração. Acho que não devia ter doído tanto, afinal amores de crianças não passava de brincadeira e imaginação.

Nessa época conheci Alice… ou teria sido Fernanda? Não, era Alice mesmo. Era a número 1 da caderneta de chamada. Não sei porque, mas ela acabou ocupando a vaga que foi da outra até a segunda série.

Mas ela não era minha namorada. Queria que fosse. Mas não era. Pra ser ela teria que saber disso. Esse segredo era só meu. E de mais de ninguém. Nem de meu pai.

Isso ficou guardado até a quarta série. Até que rolou uma festa de aniversário. A sala inteira tinha sido convidada. Inclusive eu. Os losers também foram.

Roquinhos do final dos 80 e começo dos 90 era o que embalava a festinha, bem como algumas “mixagens”. Então alguém apagou a luz e resolveu voltar alguns anos no tempo e trazer de volta Take My Breath Away… Essa era a hora. O Momento não podia ser mais perfeito.

Tomei coragem, terminei de beber o refrigerante, coisa que fiz com toda a classe, como se ao invés de refrigerante tivesse bebendo whisky, apesar de não ter a mínima idéia de como e por que se bebia whisky. Levantei da cadeira, e fui até ela. Chamei pra dançar e ouvi um “eu não sei”… e daí? Eu também não sabia. Voltei pra minha cadeira. Ao me virar lá estava a vagabunda colando seu corpo ao de outro.

Então um golpe de misericódia… Um beijo aconteceu… e não era eu. Não sei dançar né? Puta… O clichê do castelo de cartas que desaba tomou formas na minha frente.

Me juntei ao losers. Estavam jogando palitinho. Quem perdesse tinha que virar o copo inteiro de refrigerante. E eu perdi todas as partidas seguintes. Havia me tornado um deles.

Texto originalmente publicado no B-Side em 9 de julho de 2006.

 

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