Uma mente humilhante¹

July 24, 2007

¹ A shameful mind

As sextas-feiras, principalmente depois do almoço, são os dias mais preguiçosos que existem. Isso não podia deixar de ser diferente para Ulisses, que estava no escritório, acessando uma rede social para matar o tempo, que teimava em se arrastar até a hora de ir embora. Então algo incrível aconteceu. Antes de prosseguir, precisamos definir a palavra incrível.

Segundo o Dicionário Ulissiano das Palavras Exclamativas, o verbete incrível não tem nada de incrível, e serve apenas para definir fatos que, ao contrário das pessoas normais, não acontecem com muita freqüência na vida de Ulisses. Fatos esses tão banais quanto uma garçonete chamar-lhe de “meu lindo” ao solicitar o pedido, receber um convite para uma festa de aniversário ou ainda a menina mais bonita do colégio lhe dirigir a palavra, mesmo que seja para dizer “sai da frente nerd imbecil”.

Voltemos então para a nossa aventura. Ulisses havia recebido um recadinho, também conhecido com scrap, de alguém que ele não via já tinha muito tempo. Muito tempo mesmo.

“Oi Pedreira, lembra de mim? É a Tatá da oitava série. Achei você no profile do Cirilo. Como você está? Espero que não esteja mais quebrando muita pedra como naquele tempo. (risos). Te add viu? bjinhus!”

Pedreira… aquilo ficou martelando na cabeça de Ulisses. Como que alguém ainda poderia lembrar daquele sombrio acontecimento da oitava série?

Eram três: Danilo, Frederico e Ulisses, também conhecidos como Cirilo, da Lua e Ulisses. O Pedreira ainda não existia até esse ponto e Ulisses era apenas Ulisses. Esse era o trio que sempre tirava a melhor nota nas feiras de ciências, mas que ninguém fazia questão de chamar para as festas.

A única pessoa que os chamou para a festa tinha sido Talita, a Tatá, que tinha deixado o recado para Pedreira… ou melhor… Ulisses.

Tatá, ao contrário das outras meninas bonitas e ricas, era super gente boa, e sempre cumprimentava os garotos da casta mais baixa da escala social da escola: os nerds. Ou seja: Danilo, Frederico e Ulisses.

Na época, Tatá tinha 14 anos e estava prestes a fazer 15 e, ao invés de comemorar com um baile de debutantes, preferiu uma coisa mais divertida: convidar todos os seus colegas de classe (inclusive Cirilo, da Lua e Ulisses) e alguns professores para um passeio de um dia inteiro na fazenda de seus pais. Lá todos poderiam se divertir no campo de futebol, andando de cavalo, ou ainda tomando banho no lago.

Era a primeira vez que Ulisses era convidado para uma festa de 15 anos. Finalmente ele teria assunto para falar na segunda-feira ao invés de ficar apenas ouvindo os outros contarem de como a festa havia sido divertida.

No dia da festa, enquanto todos se divertiam, Ulisses reparou que a professora de geografia estava usando biquíni e iria para o lago tomar banho. A professora de geografia era a paixão platônica de Ulisses. Assistir uma aula com ela era suficiente para Ulisses ter sonhos extremamente incríveis e ter que trocar o lençol no dia seguinte… vê-la de biquíni então, nem se fala.

Ulisses resolveu segui-la. E não foi visto por cerca de meia hora.

Cansado de perder para Cirilo no palitinho², da Lua resolveu procurar Ulisses para saber se ele não queria se juntar à brincadeira, afinal com três jogando as chances dele perder cairiam pela metade, pois Ulisses também era um bom candidato a ser derrotado. Apenas Cirilo que seguia invicto. Apesar da pouca idade, Cirilo já era malaco no palitinho.

Da Lua rodou por toda a área, chegou perto do lago e só viu a professora de geografia tomando sol. Já estava desistindo da busca, quando ouviu alguns grunhidos abafados atrás de uma pedra.

Foi ver o que estava acontecendo e acabou presenciando a cena mais embaraçosa de sua vida: Ulisses, o seu melhor amigo, estava lá, atrás daquela pedra, prestando uma homenagem à professora de geografia. Depois do choque veio a reação:

- ULISSES! TU TÁ DOIDO? ISSO LÁ É LUGAR DE BATER PUNHETA? E SE ALGUÉM TE VER?

Os berros de da Lua foram suficientes para chamar a atenção da senhorita Magnólia, a professora de geografia, que veio correndo ver o que se tratava, e chegou ao local antes que Ulisses pudesse vestir as calças. Saiu furiosa em direção a casa onde todos os outros estavam.

- Da Lua? Você promete que não vai contar isso pra ninguém?
- Prometo.

Voltaram também. Chegando lá, Cirilo vem ao encontro dos dois com um sorriso enorme.

- Caras, caras, vocês não têm idéia do que eu ouvi. A professora Magnólia estava comentando alguma coisa de masturbação com a professora de educação física. Alguma coisa de se masturbar freneticamente atrás das pedras. Elas devem ser lésbicas. Que demais. Vocês devia estar aqui para ouvir também. Aliás, onde vocês estavam?

- Em lugar nenhum. - disse Ulisses

- É… em lugar nenhum. - completou da Lua - e mesmo que a gente tivesse em algum lugar eu não ia te contar, pois prometi pra Ulisses que não contaria pra ninguém que vi ele tocando punheta atrás das pedras para homenagear a professora de geografia.

Cirilo caiu na gargalhada.

- HAHAHAHHAHA! ULISSES É PUNHETEIRO! ULISSES É PUNHETEIRO! TAVA QUBRANDO PEDRA PRA PROFESSORA DE GEOGRAFIA! ULISSES É UMA PEDREIRA!

Não conseguiu conter e, sem querer, soltara aquela frase em alto e bom som para que todos no recinto pudessem ouvir. A reação imediata foi um apontar de dedos com gargalhadas seguido de um uníssono:

- PEDREIRA! PEDREIRA! PEDREIRA!

Com isso, Cirilo ganhou moral com os outros por ter colocado um apelido em alguém, e tornou-se popular. Da Lua ficou traumatizado com a situação, raspou a cabeça e disse que ia virar Hare Krishna e assim conseguiu popularidade com as meninas que liam Paulo Coelho. E Ulisses, bem… Ulisses havia virado Pedreira.

Agora ele estava ali, mais uma vez em confronto com seu passado, tendo encontrado com a culpada daquilo tudo. Se Tatá não fosse gente boa, ao contrário das outras meninas, e não o tivesse convidado para sua festa, aquilo nunca teria acontecido. Pensou um pouco e respondeu ao scrap:

“Oi Tatá… quanto tempo hein? Eu estou bem. E você? Beijos… Pedreira.”

Viu que já eram 18:30 e foi embora pra casa.

² Também conhecido como porrinha/purrinha em alguns lugares.

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2 comentários

  1. PsychoPenguin WebLog » Blog Archive » Valeu a pena esperar? diz:

    […] Leia lá no Vi da Privada: Uma mente humilhante. […]

  2. Lika diz:

    Ele voltou!! Huahauahauhua
    prestando um homenagem, gostei da metáfora.
    Loser teen, adulto loser. []s

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