Por uma vida menos badalada
Final de semana. Lá estava Ulisses enfurnado em um hotel em uma outra cidade. Tinha viajado a trabalho e não conhecia ninguém naquele maldito lugar.
Apenas ouvia músicas no seu laptop, enquanto a TV estava sintonizada num canal de desenhos animados. De repente, se empolga com o som, levanta e começa a dançar a sozinho no quarto:
- Dancing with myself.. oh oh oh oh… dancing with myself…
Se achou o máximo e acreditou que aquele era o seu grande dia, resolveu arriscar e sair sozinho. Desceu até a recepção onde tinha um tabuleiro que exibia vários panfletos informativos para turistas. Locadoras de carro, lavanderias, restaurantes, bares, casas noturnas. Um em especial lhe chamou a atenção: Liverpool Pub, a casa do rock. Música boa, ambiente aconchegante e muita gente bonita.
“Uau! Uma casa de rock, com nome da cidade dos Beatles, e ainda por cima muita gente bonita… esse lugar é demais. É pra lá mesmo que eu vou.”
Pegou um panfleto e seguiu para o ponto de táxi em frente ao hotel.
- Vamos pra esse endereço. - pediu ao taxista.
- O senhor que manda, chefia.
No caminho, percebendo que Ulisses não era da cidade, resolveu puxar um papo:
- Tá aqui a quanto tempo?
- Uma semana.
- Ah! Então já deve ter ido nas boates que tem lá perto do Liverpool…
- Não. Ainda não. Cheguei aqui na segunda. Não conheço nada ainda.
- Pois eu te recomendo a Savage. Fica na rua de trás do Liverpool.
- Hummm… o que rola por lá?
- Rapaz, lá tem tipo um sofazão onde as mulheres ficam sentadas pra você escolher. Aí paga, e vai num quartinho lá mesmo. Com 100 conto dá pra passar o cipó. Mas a melhor de todas, tu não come por menos de trezentinhos. Pega aí no porta-luvas um panfleto da Savage. Tem uma foto da Morgana aí. Olha e me diz se não parece com Juliana Paes…
Ulisses pegou o panfleto e começou a olhar. Mulheres gostosíssimas. Até que viu a tal da Morgana, e apesar de não lembrar muito a fisionomia de Juliana Paes, disse ao taxista:
- É… parece mesmo. Mas vou ficar no Liverpool mesmo, tô a fim de exercer todo meu poder de conquista hoje.
- Então chegamos.
- Quanto foi a corrida?
- R$32,70… mas trinta paga.
- Valeu!
- Boa sorte, Casanova!
“É… taxista sabe viver. É impressionante como em todo lugar que vou os taxistas me recomendam puteiros caros. Será que tenho cara de rico? Na boa, esses caras devem ganhar alguma comissão. Trezentos contos pra comer uma mulher… já tive que economizar no almoço da semana pra poder vir pra cá de táxi. Se ao menos eu soubesse andar de ônibus aqui eu ia lá no Savage e pegava uma menina de R$100… Nossa, que fila enorme pra entrar. Esse Liverpool deve ser muito bom mesmo…”
- Tem o nome na lista? - uma hostess, não muito diferente das outras meninas da fila, perguntou a Ulisses.
- Não. Nem sabia que tinha que pôr o nome. Eu fiquei sabendo daqui por um panfleto no hotel. Tem que ter o nome pra entrar é?
- Não, o nome é só pra ganhar desconto na entrada. Sem o nome é R$25,00.
- Tá muito cheio lá dentro?
- Tá bombando.
Lá dentro a pista ainda estava vazia. Aparentemente a festa ainda não tinha começado.
“Pearl Jam? Blergh… Não é lá meu favorito… mas pelo menos é rock. Vou tomar uma cerveja enquanto a coisa não começa.”
Então Ulisses começou a beber junto ao balcão do bar, enquanto a casa ia começando a encher.
“Hummm… acho que vou chegar junto naquela loirinha ali. Mas antes vou tomar outra cerveja pra criar coragem.”
Começou a tocar hip-hop.
“Ué? Não era uma casa de rock? Que merda é essa? Ah! Deixa pra lá. Eu vim aqui foi pra pegar mulher. A propósito, cadê aquela loirinha? Sumiu… será que demorei demais e alguém pegou primeiro? Que se dane. Agora quero aquela morena de saia curtinha. Mas antes uma caipiroska pra tomar coragem e ignorar a música ruim…”
Passadas aproximadente cinco horas, oito cervejas, quatro caipiroskas, um bloody mary, um drink que-pega-fogo-e-serve-3 que foi compartilhado com mais dois caras que surgiram do nada e que ninguém faz a menor idéia de quem eram, uma cantada rejeitada em um travesti banguela e um grande lapso de memória, Ulisses é interrompido:
- Chegamos. Deu 37 reais.
Ulisses olhou para o lado e viu um cara ao volante, dentro de um carro, misteriosamente estacionado na frente de seu hotel. Então puxou uma nota de 20 e falou:
- Cara, foi mal. Só tenho isso. Pode passar mais tarde pra pegar o resto?
- É o jeito né…
Enquanto via o táxi se afastar, ainda ouviu o motorista resmungando algo a respeito de dinheiro e vômito. Entrou no hotel e se escorou no balcão:
- Zento e onze, bor vavor!

May 6th, 2007 at 9:21 am
Faz a gente pensar se a arte imita mesmo a vida, ou se a vida imita a arte… ou não, ou ainda: muito pelo contrário!
May 6th, 2007 at 4:31 pm
Porra Ulisses! Porra!
(essa expressao vai entrar pro catalogo)
May 11th, 2007 at 2:36 am
blz Fábão!
rsrsrsr! quando entrou no taxi! sabia que vinha o cipó na história! rsrsrsrrs!!!
eita… Ulisses sabe como e onde pagar a melhor e mais cara cerveja!
abraçao! to seguindo a trajetória!