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Um dia de glória

May 21, 2007

Tudo estava perfeito naquela sexta-feira. Já eram 16:30. Seu Onofre, o chefe de Ulisses tinha saído mais cedo, e no escritório não tinha quase ninguém. Apenas Ulisses e Juliana, a menina da recepção

Se alguém quisesse encontrar Ulisses naquele escritório, era fácil. Bastava olhar para a baia do canto mais escuro, onde um sujeito estararia quase deitado na cadeira, com fones de ouvidos, cercado de vários papéis, cds e outras tralhas.

Mas como ninguém nunca queria encontrar Ulisses mesmo, essa orientação de como chegar até sua área de trabalho era completamente inútil. Apenas uma pessoa procurava por Ulisses: seu Onofre. Mesmo assim era apenas pra cobrar os prazos, coisa que ele fazia ligando para o ramal de Ulisses e chamando-o até a sua sala. Ulisses era apenas um ramal.

Então lá estava o ramal… quer dizer Ulisses enrolando, contando os minutos para a hora de ir embora. Então de repente uma mensagem do programa de instant messaging salta em sua tela. Era krente26@hotmail.com. A janelinha piscava incessantemente. Ulisses gelou.

“Êta porra! Agora lascou. Deve tá soltando os cachorros em cima de mim por ter dado um cano nela naquele dia no shopping”.

Resolver ler a mensagem, afinal ele merecia aquilo. Uma coisa daquelas não se faz.

[16:47:07] krente26@hotmail.com diz:

oi ulisses… me desculpa por aquele dia. devo ter te magoado um tantão não indo te encontrar no shopping.

[16:48:22] krente26@hotmail.com diz:

eu fui uma estúpida, voltei pro meu namorado na noite anterior. apenas para descobrir que ele não vale nada.

[16:49:45] krente26@hotmail.com diz:

queria ter uma outra chance contigo.

Ulisses abriu um sorriso estúpido, daquele que vão de orelha a orelha. O sorriso era tão estúpido que todo mundo iria preferir ser carrancudo do que sorrir daquele jeito.

[16:50:21] zeulisses@gmail.com diz:

era o que eu mais queria. e então o que sugere?

[16:51:39] krente26@hotmail.com diz:

vamos pro Sir Albert, um pub bem legal. as 17:30. Que tal?

[16:52:00] zeulisses@gmail.com diz:

fechado então. nos encontramos lá daqui a pouco.

As 17:30 em ponto Ulisses já estava adentrando o Sir Albert. Estava vazio. Apenas uma mulher sentada junto ao balcão na penumbra. Ulisses não podia ver seu rosto, pois ela estava de costas. Mas podia imaginar que era ela.

Ulisses se aproximou, colocou-lhe uma mão no ombro e perguntou:

- krente26@hotmail.com?

- Oi Ulisses. Já estava te esperando. E aí está supreso?

Ulisses fez uma cara de panaca por uns 30 segundos. Bem a cara de panaca já existia, ele apenas a reforçou por uns 30 segundos. Quem estava em sua frente era Juliana. A recepcionista gostosa-que-todo-mundo-quer-comer da empresa em que ele trabalhava.

- Ju… Ju… Juliana? Você é a krente26@hotmail.com?

- Isso mesmo Lissinho… esse foi o único jeito que encontrei de chegar até você. Desde que entrei na empresa fiquei apaixonada por você. Mas você sempre me pareceu inalcançavél, atrás daquele monitor e cercado de coisas naquela baia que mais parecia uma fortaleza. Então apelei pra Internet.

- Puxa Juliana, estou surpreso. Nunca iria imaginar. E então vamos tomar o que?

- Ah… sei lá. Esse lugar está meio chato. Que tal irmos lá em casa? Tem um vinho. Uma amiga minha ficou de ir pra lá agora no começo da noite. Poderíamos fazer uma festinha nós três.

Quase explodindo de felicidade Ulisses nem se dá conta, mas já está sentado no sofá na casa de Juliana, completamente à vontade. A campanhia toca. Deve ser a amiga de Juliana.

Quando a porta é aberta, mais uma surpresa: a tão espera amiga de Juliana era Bia, a mesma que cantara Like a virgin após ele ter perdido seu cabaço.

Bia e Juliana se cumprimentaram com um longo e caloroso beijo na boca. Daqueles que as líguas ficam roçando uma na outra. De repente elas já estavam sem roupas, esfregando seu mamilos duros uma na outra. Então Juliana disse:

- Vem Ulisses, junte-se a nós!

Ulisses levantou do sofá, e de repente tudo sumiu. Onde estavam Juliana e Bia? E o sofá? E o vinho? A única coisa que Ulisses pôde pensar naquele momento foi:

“Droga! Vou ter que botar o lençol pra lavar de novo…”

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Quase-mulher nota 1000

May 11, 2007

Este episódio é dedicado a todas as pessoas que estão com a resistência de seus chuveiros queimadas. Isso faz parte do loser way of life.

Fazia frio. Muito frio. Um frio do caralho… Lá estava Ulisses, em casa, trajando um pijama azul-calcinha velho em frente ao computador enquanto tomava um chá de boldo.

Tava na seca. Nunca mais comera ninguém depois de Bia. E não se contentava mais em ficar só na punheta. Aquele ditado sobre quem come melado era verdade. Ele tinha que sair para conseguir alguém. E que se possível não precisasse pagar.

Precisava tomar um banho antes de sair, já estava meio catimbozeiro, com uma inhacazinha básica.

Mas tinha um porém. Sempre tem que ter um porém. O chuveiro estava com a resistência queimada. E fazia frio. Muito frio. Podia usar a saída dos franceses, mas Ulisses esquecera seu único perfume no hotel em sua última viagem.

Então lá estava Ulisses, com seu pijama azul-calcinha, com seu chuveiro queimado, fedendo e com frio.

“Quer saber… ganho mais ficando em casa. Eu não ia pegar ninguém mesmo… Hummm… acho que vou experimentar esse tal de Second Life que todo mundo tá falando. Quem sabe eu não arrume uma mulher por lá? Foda-se se for mulher virtual. Pelo menos eu treino meus poderes sedutores para consquistar todas no mundo real.”

Então lá foi Ulisses baixar o Second Life. Depois de um download relativamente rápido, ele já estava criando seu avatar.

“Hummm… vejamos… do que as mulheres gostam num cara? Vou botar um físico malhado. Bombadão. Eu não consigo na academia, mas aqui eu posso. Cabelo grande claro. Toda mulher gosta de um cabeludo. Cabelo no peito também… pra finalizar um gigantesca… êpa? Peraí? Cadê minha rola? Esse meu boneco é capado. Mas que porra! Todo mundo deve ser assim.”

Já que não podia ter o corpo dos seus sonho Ulisses resolveu partir pra roupas.

“Acho que vou usar coisas simples. Nada de parecer um pavão. Uma calça jeans e uma camiseta aberta no peito.”

Então lá foi Jesse “Ulisses” Valadão aproveitar sua vida nova. Pesquisou alguns lugares. Achou uma boate. Girls! Girls! Girls! Várias mulheres. Muitas mulheres mesmo. Aliás, só tinha mulher. Ele era o único cara. Se imaginou Elvis. Avistou um avatar de uma ruiva de mini-saia e sobrenome russo. Partiu pra cima:

- Oi, eu sou novo por aqui, você poderia me ajudar?
- Cai fora mané, eu sou lésbica!
- Me desculpe, eu não sabia.
- Não me venha com essa. Você por acaso vê outro cara por aqui?
- É verdade… aparentemente eu sou o único.
- Isso porque você é um daqueles tarados pervertidos que vem aqui pra ver mulheres se agarrando.
- Não… é que… eu apenas…
- Não vê que isso aqui é um clube de lésbicas? Cai fora logo, antes que eu te denuncie.

Ulisses não teve outra escolha a não ser se teletransportar para o primeiro lugar que viu. Era um espaço aberto, onde algumas pessoas conversavam. Olhou em volta para ver se tinham outros caras. Tinha mais uns quatro ou cinco conversando com as mulheres do local. Tranquilizou-se ao saber que não seria expulso dali por ser local exclusivo de mulheres. Dessa vez viu uma morena de vestido verde, recém-chegada ao lugar e sozinha.

- Oi, antes de mais nada, você não é lésbica não né?
- Não, mas caras grossos como você me fazem pensar no assunto com mais frequência. Isso lá é jeito de falar com alguém que não conhece?
- Desculpe. É que quase tomo uma surra de uma lésbica por não saber que eu estava num lugar restrito.
- Não me conte seus problemas. Já vi que esse lugar é uma droga.

E misteriosamente a morena de vestido verde se teletransportou para algum lugar desconhecido de Ulisses.

“Porra… até pegar mulher virtual é difícil. Vou tentar aquela japinha ali. Se não rolar nada eu mudo de lugar.”

- Oi.
- Oi.
- E então, o que rola por aqui?
- Nada demais. As pessoas vêm aqui para dançar e flertar.
- Interessante. Quer dançar?
- Até queria. Mas não com você. Não gosto de caras bombados. Pra mim são todos gays.
- Mas eu não sou…
- Sai pra lá sua bicha bombada.

E mais uma vez, depois de mais uma rejeição, Ulisses resolveu se teletransportar. Optou por algo menos badalado. Tinha desistido de pegar alguém. Foi pra um cassino dar uma volta e olhar as máquinas de caça-níquel. Ficou apenas olhando, já que não tinha dinheiro para jogar. Ficou uns dez minutos olhando. Tinha algumas mulheres interessantes, mas não tinha a menor idéia de como chegar até elas. De repente uma musa lindíssima se aproximou. Cabelos pretos até a cintura, vestido curto colado ao corpo. Chamava-se Mirna. Ulalá!

- Oi, está sozinho?
- Estou sim. E você?
- Também. Não entendo como um cara lindo como você fica sozinho. Adoro caras cabeludos e malhados.
- Sério? Teve uma menina que disse que eu era gay por causa disso.
- Tolinha. Não sabe o que é dar uns agarros numa carne durinha.
- Desse jeito você está me deixando excitado.
- Hmmmm. Não estou sendo atirada demais?
- Não… até gosto de mulheres que tomem a iniciativa. São mulheres especiais.
- Sim, eu sou muito especial. Quero te fazer uma surpresinha… Tá a fim de se teletransportar comigo pra um lugar mais reservado?
- Opa… demorou. Adoro surpresas. Pra onde?
- Um lugar que descobri esses dias.
- O que tenho que fazer?
- Me coloca na sua lista de amigos, então eu me teletransporto pra lá e te convido assim que chegar. Então você aceita meu convite e pronto. Poderemos ficar mais a vontade e eu te farei uma belissima surpresa!
- Tá certo, então.

Tão logo a parte técnica foi executada, Mirna se teletransportou, convidando Ulisses para sua alcova.

“Olha só pra isso. Um quarto com uma cama e almofadas e bolinhas escrito blowjob, ontop, doggy style e outras sacanagens. Que safadinha. Vou me dar bem, e sem precisar pagar.”

- Você tá ouvindo a música ambiente? - perguntou Mirna.
- Não.
- Liga ela. Pra dar um clima. Vou fazer um strip tease pra você.
- Como ligo?
- Aperta o play que tá na parte de baixo da tela.
- Pronto liguei.

Tocava Roxette. Mirna começou a se mexer como se estivesse dançando. Se livrou primeiro do vestido, ficando somente de calcinha e sutiã. Virou-se de costas. Tirou o sutiã e virou para Ulisses devagarzinho.

Ulisses estava empolgado com aqueles peitos. Só presenciara um strip tease uma única vez na vida em um puteirinho fuleiro onde ele fora uma vez no tempo da faculdade com os colegas da pensão onde morava. Por coincidência lá também tocava Roxette.

Mirna virou-se mais uma vez de costa.

- Já te mostro a surpresa… - disse enquanto tirava a calcinha.

Ulisses estava ficando cada vez mais louco com aquele bundão ali, estava em ponto de bala, ansioso pela surpresa de Mirna. Então ela se vira e grita:

- SURPRESA!!!!

Ulisses ficou surpreso com o que viu. No lugar de uma buceta, Mirna apresentava uma jeba enorme. Não conseguia acreditar… Mirna era um travesti. Pior ainda… Mirna tinha um pau, e ele não.

Desolado, desligou o computador e foi dormir com seu pijama azul-calcinha e sem tomar banho porque estava muito frio e a resistência do chuveiro tinha queimado.

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Apenas Um Entre Dez Mil e Sessenta e Sete

May 10, 2007

Ei! Acorde. Vamos lá… está na hora de levantar. ACORDA PORRA!!!

Tudo bem, mais 10 minutos, acho que não tem problema não…

Tempo esgotado, o Império te chama… Mais 10? Caralho, deixa de preguiça… Certo, certo, tá liberado. Mas só esses 10 hein? Não vai abusar.

Vamos nessa, já fui bonzinho demais. Para de olhar pro teto e levanta logo. Isso bom garoto.

Corre pro banheiro e vai mijar. Entra pro banho agora. Não importa se faz frio, você ainda tá com essa cara de sono e precisa estar apresentável. Além de que sua cabeça só funciona depois de um choque.

Excelente.Não esquece de lavar embaixo do saco e o suvaco. Beleza… se enxuga e escova os dentes. Legal essa sua escova elétrica, coisa de preguiçoso mesmo. Vai pra onde assim com pressa? Calma. Se olhe no espelho. Não tem vergonha não? Arrume essa barba. Até parece alguém que passou 6 dias dentro de um poço. Até que você tá indo bem. Agora é a vez da roupa.

Essa calça me parece apertada, você engordou nos últimos dias? Bem, quem se importa… veste logo a camisa. Bonitos sapatos, me parecem confortáveis. Pronto, vai-te embora, e não esquece o casaco. E aqui termina o primeiro ato.

Caminhe, ande, mova esse traseiro gordo. Mas tá liberado pra um café na loja de conveniência do posto de gasolina. Boa escolha, agora continua andando. Atravessa a rua. Atravessa a outra, mas olha pros 2 lados antes. Agora sobe a escada. Parou por que? Por que parou? Olhe nos bolsos, você tem um passe ainda. Passe pela catraca e vai esperar o metrô…

Por que não foi nesse último? E daí que estava cheio demais? Você vai acabar se atrasando. Pegue o próximo.

Chegou sua estação, desce e vai pegar o próximo. Caralho!!! Tá lotada. Tem que esperar, é o jeito. Entra na fila. Chegou tua vez, entra e te manda. Enquanto espera procura não esquecer de dizer que a ama. Desce de novo. Pega mais um metrô. Te juro, esse é o último desse ato. Vai lá, é só mais uma estação. É rápido. Não falei?

Sobe as escadas, atravessa a rua, entra no prédio, chama o elevador… entra e aperta o 8. Fim do segundo ato.

Bota um sorriso na cara, pensa nela pra facilitar. Toma um expresso, cumprimenta as pessoas, vai pra tua baia. Se loga, lê teu email. Pronto. Agora vai ensinar as coisas pra tua colega. Até que é mais ou menos hein?

Toma mais um trabalhinho pra você… desenvolve esse material, é pra essa semana ainda. E daí que vai te sobrecarregar? Você é forte… pensa nela cara, tu tá fazendo isso por ela. Vai agora se concentra. Olha ela no chat! Diz que a ama. Muito bem, agora volta ao trabalho. Recusa o convite pra almoçar, diz que vai mais tarde. Até que você tá indo muito bem.

Hora de comer… já sabe né? Elevador, atravessar rua, restaurante, pegar prato, escolher comida, pesar, comer, pagar, voltar.

Acompanhe como está a menina que você está treinando… volte pro material… trabalhe, trabalhe e trabalhe. Lembra… é por ela.

Para tudo. Sua colega tem dúvidas, e te falaram que isso é prioridade. Vai ajudá-la. Isso, deixa ela craque… será que é possível em 3 dias? Veremos. Já é hora de voltar, não? Tudo bem, só mais um pouco.

Se fudeu! Falei que era pra ir embora. Agora deu pau num cliente. Vai sacana! Resolve agora. As horas passam e você aí. Manda o cara do outro lado se fuder, o problema dele não tem solução imediata. Pega tuas coisas e vai-te embora. Sabe bonitinho né? Elevador, rua, metrô, metrô, metrô, escada, rua, rua. Passa no posto, pega um lanche. Vai pra casa. Toma banho, come o lanche do posto, fala com ela. Diz que a ama, e que tudo vale a pena por sua causa. Parabéns, você conseguiu. Vai dormir e te prepara pro dez mil e sessenta e oito. E segue até o GAME OVER.

Origninalmente publicado no PsychoPenguin Weblog em 19 de Abril de 2006

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Por uma vida menos badalada

May 5, 2007

Final de semana. Lá estava Ulisses enfurnado em um hotel em uma outra cidade. Tinha viajado a trabalho e não conhecia ninguém naquele maldito lugar.

Apenas ouvia músicas no seu laptop, enquanto a TV estava sintonizada num canal de desenhos animados. De repente, se empolga com o som, levanta e começa a dançar a sozinho no quarto:

- Dancing with myself.. oh oh oh oh… dancing with myself…

Se achou o máximo e acreditou que aquele era o seu grande dia, resolveu arriscar e sair sozinho. Desceu até a recepção onde tinha um tabuleiro que exibia vários panfletos informativos para turistas. Locadoras de carro, lavanderias, restaurantes, bares, casas noturnas. Um em especial lhe chamou a atenção: Liverpool Pub, a casa do rock. Música boa, ambiente aconchegante e muita gente bonita.

“Uau! Uma casa de rock, com nome da cidade dos Beatles, e ainda por cima muita gente bonita… esse lugar é demais. É pra lá mesmo que eu vou.”

Pegou um panfleto e seguiu para o ponto de táxi em frente ao hotel.

- Vamos pra esse endereço. - pediu ao taxista.
- O senhor que manda, chefia.

No caminho, percebendo que Ulisses não era da cidade, resolveu puxar um papo:

- Tá aqui a quanto tempo?
- Uma semana.
- Ah! Então já deve ter ido nas boates que tem lá perto do Liverpool…
- Não. Ainda não. Cheguei aqui na segunda. Não conheço nada ainda.
- Pois eu te recomendo a Savage. Fica na rua de trás do Liverpool.
- Hummm… o que rola por lá?
- Rapaz, lá tem tipo um sofazão onde as mulheres ficam sentadas pra você escolher. Aí paga, e vai num quartinho lá mesmo. Com 100 conto dá pra passar o cipó. Mas a melhor de todas, tu não come por menos de trezentinhos. Pega aí no porta-luvas um panfleto da Savage. Tem uma foto da Morgana aí. Olha e me diz se não parece com Juliana Paes…

Ulisses pegou o panfleto e começou a olhar. Mulheres gostosíssimas. Até que viu a tal da Morgana, e apesar de não lembrar muito a fisionomia de Juliana Paes, disse ao taxista:

- É… parece mesmo. Mas vou ficar no Liverpool mesmo, tô a fim de exercer todo meu poder de conquista hoje.
- Então chegamos.
- Quanto foi a corrida?
- R$32,70… mas trinta paga.
- Valeu!
- Boa sorte, Casanova!

“É… taxista sabe viver. É impressionante como em todo lugar que vou os taxistas me recomendam puteiros caros. Será que tenho cara de rico? Na boa, esses caras devem ganhar alguma comissão. Trezentos contos pra comer uma mulher… já tive que economizar no almoço da semana pra poder vir pra cá de táxi. Se ao menos eu soubesse andar de ônibus aqui eu ia lá no Savage e pegava uma menina de R$100… Nossa, que fila enorme pra entrar. Esse Liverpool deve ser muito bom mesmo…”

- Tem o nome na lista? - uma hostess, não muito diferente das outras meninas da fila, perguntou a Ulisses.
- Não. Nem sabia que tinha que pôr o nome. Eu fiquei sabendo daqui por um panfleto no hotel. Tem que ter o nome pra entrar é?
- Não, o nome é só pra ganhar desconto na entrada. Sem o nome é R$25,00.
- Tá muito cheio lá dentro?
- Tá bombando.

Lá dentro a pista ainda estava vazia. Aparentemente a festa ainda não tinha começado.

“Pearl Jam? Blergh… Não é lá meu favorito… mas pelo menos é rock. Vou tomar uma cerveja enquanto a coisa não começa.”

Então Ulisses começou a beber junto ao balcão do bar, enquanto a casa ia começando a encher.

“Hummm… acho que vou chegar junto naquela loirinha ali. Mas antes vou tomar outra cerveja pra criar coragem.”

Começou a tocar hip-hop.

“Ué? Não era uma casa de rock? Que merda é essa? Ah! Deixa pra lá. Eu vim aqui foi pra pegar mulher. A propósito, cadê aquela loirinha? Sumiu… será que demorei demais e alguém pegou primeiro? Que se dane. Agora quero aquela morena de saia curtinha. Mas antes uma caipiroska pra tomar coragem e ignorar a música ruim…”

Passadas aproximadente cinco horas, oito cervejas, quatro caipiroskas, um bloody mary, um drink que-pega-fogo-e-serve-3 que foi compartilhado com mais dois caras que surgiram do nada e que ninguém faz a menor idéia de quem eram, uma cantada rejeitada em um travesti banguela e um grande lapso de memória, Ulisses é interrompido:

- Chegamos. Deu 37 reais.

Ulisses olhou para o lado e viu um cara ao volante, dentro de um carro, misteriosamente estacionado na frente de seu hotel. Então puxou uma nota de 20 e falou:

- Cara, foi mal. Só tenho isso. Pode passar mais tarde pra pegar o resto?
- É o jeito né…

Enquanto via o táxi se afastar, ainda ouviu o motorista resmungando algo a respeito de dinheiro e vômito. Entrou no hotel e se escorou no balcão:

- Zento e onze, bor vavor!